Amanhã, quando os mais de 280 conselheiros forem ao Palestra Itália votar, será decretada o fim de uma era. Será o fim da “Era Belluzzo” no Palmeiras.
Como sempre, o ideal é aguardar para fazer um balanço de sua gestão. Mas mesmo sendo cedo para fazermos juízo sobre qual vai ser o lugar da gestão Belluzzo na história do Palmeiras, eu me sinto no dever de sair em defesa do Professor, porque apesar dos fracassos dentro de campo e de algumas feias derrapadas, a sua gestão deixa alguns saldos bastante positivos.
Um dos saldos positivos é a reformulação das categorias de base. O Palmeiras, apesar do fracasso nessa última copinha, havia muito tempo não chegava com tanta frequência na reta final das mais diversas competições. Belluzzo trocou o comando e iniciou um processo de profissionalização do departamento, chefiado agora pelo coordeandor técnico Marco Antonio Biasotto. Veja mais aqui.
Outro saldo positivo é a captação de recursos públicos para a construção de um CT em São Roque (video aqui)para formação de atletas. Veja a notícia, com uma conotação extremamente negativa, diga-se, aqui. Sobre a questão de uso de recursos públicos, minha visão (colocando-me na pele do presidente) é a seguinte: se nossos concorrentes fazem, temos que fazer também ou ficamos pra trás. O ideal seria, aliás, que tivéssemos largado na frente. Se é imoral, como afirma o colunista, deve-se mudar a lei. Enquanto isso, a gestão do clube precisa fazer o que é melhor pelo clube. Ponto pra Belluzzo.
Ainda há mais saldos positivos. Quem frequenta o clube via o estado completo de abandono em que nosso patrimônio vivia. Hoje, tudo está sendo paulatinamente reformado, atualizado. Isso inclui o departamento médico e a Academia.
Além de tudo isso, talvez o que vá marcar a gestão Belluzzo daqui a dez, vinte anos, seja a aprovação da Arena Palestra. Aqui, cabe todo o tipo de argumento contra a modernização do futebol (muitos dos quais eu defendo e concordo). De qualquer forma, o projeto tem o potencial de alavancar as receitas do clube. E no futebol moderno (os tempos são esses, vamos lutar contra isso, mas não adianta chorar, manter uma estrutura amadora e ver nossos concorrentes ganharem títulos), quem não paga em dia não chega. Quem não explora seu patrimônio eficientemente, não capta recursos e acaba sem investidores. E entre captar recursos com base em tudo que a modernidade pode nos oferecer (racionalidade, gestão burocrática, impessoalidade) ou pegar dinheiro emprestado do Palaia ou do Osório Furlan, eu fico com a primeira opção.
Tá certo, aqui caberia uma discussão muito maior do que a que estou promovendo. O debate não é entre modernidade e feudalismo medieval (representado pelo Palaia, no meu humilde modo de ver). Mas até darmos o salto em direção ao desconhecido e tudo aquilo que a Pós-modernidade (odeio esse termo) pode nos oferecer, bem que um pouquinho de modernidade vai bem.
É pouca coisa, senhores e senhoras? Eu acho que não. Fosse o Palmeiras campeão brasileiro em 2009, a gestão Belluzzo ainda teria ganho forças e capital político para fazer mais. Algum dia, alguém irá explicar a dolorosa derrocada. Até lá, sou obrigado a concordar com o tolinho (pra dizer o mínimo) Juca Kfouri, que afirmou que “O Palmeiras fez tudo certo e deu tudo errado” (video aqui)
Daí em diante, o caos se instalou. Perdemos as receitas de uma vaga na Libertadores e os investimentos no futebol minguaram, o clima se deteriorou (ainda acho que o Muricy tem culpa aqui), a maldade da oposição ressurgiu, a imprensa encontrou uma crise para vender jornal e a Traffic nos abandonou, levando com ela Diego Souza, Cleiton Xavier, entre outros. Palaias e Pescarmonas botaram as asinhas de fora. E Belluzzo perdeu a mão justamente onde sua gestão foi mais incompetente: no plano político.
Pense nas grandes derrapadas de Belluzzo. Qual a primeira que lhe vem a cabeça? Na minha, é o episódio Simon (video aqui). E a segunda grande derrapada? Na minha cabeça, é o episódio “vamos matar os bambis”. Duas condutas que não cabem na postura de um homem público, seja ele deputado ou presidente de um clube de futebol.
Algumas condutas de Belluzzo ficam na zona nebulosa e hoje figuram como grandes burradas ou erros apenas por conta dos resultados no futebol. Entretanto, insisto em absolver o professor de, ao menos, parte delas. Vejamo-las:
a) a demissão de Luxemburgo;
se há algum erro de Belluzzo neste episódio, foi o de não ter demitido o treinador por justa causa, evitando assim o pagamento de multa rescisória. Belluzzo fez mais do que certo em demitir o treinador. Luxemburgo e Traffic era uma parceria que não podia, em qualquer situação, dar certo.
b) contratação de Muricy;
reza a lenda que Cipullo bancava Jorginho no cargo. Para mim, ponto pra Cipullo. Entretanto, um baita treinador estava dando sopa no mercado. Era uma decisão extremamente difícil, da qual Belluzzo não pode ser considerado culpado.
c) demissão de Muricy;
aqui, acho que não há desculpas. Dê ao Muricy um time e ele fará uma equipe competitiva. Além disso, pagar a multa rescisória do treinador não é moleza não. Este foi o maior erro da gestão Belluzzo no futebol, na minha opinião, tudo quando o leite já tinha azedado (pós derrocada 2009).
d) contratação de Felipão
Quem sou eu pra questionar? Ponto positivo pra Belluzzo.
e) Repatriação de Valdivia e Kléber
Os dois jogadores voltariam naturalmente para o Palmeiras em 2010, com uma simples vaga na Libertadores. Mas ficamos de fora, sem recursos e Belluzzo investiu muito em repatriar a paixão alviverde. Estou seguro que o investimento não foi uma medida racional. Foi a tentativa, já desesperada, de salvar sua gestão e acalmar uma torcida inflamada. Tenho a certeza que poderíamos ter um time mais competitivo com os mesmos recursos. Por outro lado, Felipão, Valdivia e Kléber (somados aqueles que aqui já estavam, como o maior de todos Marcos, Danilo e Pierre), são o que sustenta acesa o que restou da chama palestrina. São o fiapo de esperança que nos faz ter fé no futuro.
Belluzzo deixou ainda, coisas por fazer: a política do Palmeiras para o torcedor e para a internet é um fracasso. Nosso estatuto ainda impede uma maior participação dos sócios na vida política do clube e serve como um desincentivo para aqueles que, como eu, querem ajudar a fazer um Palmeiras melhor.
Por tudo isso, acho extremamente exageradas as colocações que julgam Belluzzo como o pior presidente dos últimos tempos, ou mesmo como um presidente ruim. Seu legado para o Palmeiras será importante, justamente em uma parte de infra-estrutura que não rende títulos ou vitórias a curto prazo.
O que nos resta é torcer para que não aconteçam retrocessos nessa caminhada e que o clube continue a se modernizar (uso sem medo a maldita palavra). Oxalá nosso conselho tenha a sabedoria de não nos jogar de volta ao feudalismo de nossos velhos dirigentes decrépitos. Isso significa, para mim, eleger o Nobre, já falei.
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