Por Rodrigo Savazoni
Assistindo à partida final do campeonato brasileiro, entre Palmeiras e Corinthians, senti inveja dos gambás. Não porque eles estavam disputando aquele jogo com chances de serem campeões e nós, por mais um ano, éramos carta fora do baralho. O Corinthians é e sempre será nosso freguês. Já até cansei de ganhar deles. Um título a mais não mudaria isso.
A inveja era porque o jogo ocorreu no dia da morte de um de seus maiores líderes, o Sócrates, um jogador que gostaria que tivesse atuado no Palestra. Não só pela bola que apresentou nos gramados mas pela experiência democrática que ele comandou no início dos anos 1980. Tivéssemos vivido algo assim, teríamos razão para estender o punho em riste, como tipicamente fazia o Magrão, e como fizeram os jogadores alvi-negros perfilados no círculo central do gramado no último jogo do brasileirão. Esse ato, o de estender o punho, é um símbolo universal dos que lutam pelo que acreditam. Minha inveja, portanto, era porque, um dia, eles puderam experimentar a democracia, o que, infelizmente, não ocorre em nosso clube.
Nós, palmeirenses, precisamos ampliar nossa exigência de democracia e não fazer o papelão que a Mancha fez recentemente. Diante da possibilidade de Richarlyson vir a se transferir para o Palmeiras, a torcida iniciou uma série de protestos que se encerraram com a extensão de uma abjeta faixa em frente ao Palestra com os dizeres: “a homofobia veste verde”. Não veste. Os autores da faixa, integrantes da Mancha Verde – mas que também não falam por toda a torcida – não representam os palmeirenses. E se assim pensa a torcida organizada, ela não me representa.
O que é verde, meus caros, é a esperança. A esperança de vivermos um dia em um país em que os direitos humanos sejam respeitados, em que jogadores raçudos e competentes como Richarlyson não sejam perseguidos por sua orientação sexual (seja ela qual for), em que a democracia se imponha sobre a barbárie. Homofobia deveria ser crime. Não é, porque este é um país com um alto déficit democrático, mas estamos avançando. E diante das expressões do atraso, vocalizadas por membros da maior torcida organizada do nosso time, não devemos calar.
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