Quinto texto da série “Contra a homofobia no futebol” – Por Rafael Evangelista
No fim do ano passado, com o campeonato ainda agonizando, comecei a rascunhar um texto sobre a zona política palmeirense. Ficou pela metade, mas os textos dos amigos aqui do VaiParmera em repúdio à faixa homofóbica me permitem retomar o argumento principal.
Acho que os amigos já escreveram muito bem sobre como a homofobia não é algo que tenha a ver com a história do Palmeiras. Além disso, e tão importante quanto, a homofobia não é algo que devamos permitir que seja ligado à nossa história – essa, que um dia vai ser passado, mas que fazemos hoje. Explico.
Gente burra, preconceituosa e escrota existe em todo lugar. Quando Richarlyson passou por outros times vimos manifestações parecidas de outras torcidas. É triste mas é assim, a estupidez de alguns pode marcar a imagem de muitos se não for refutada com vigor. Nesse sentido, junto meu argumento ao do Seo Cruz, que escreveu antes mesmo de a famigerada faixa ser aberta, chamando Tirone de covarde: “sua submissão [de Tirone] não só prejudica a formação de um plantel idealizado por seu treinador (…), mas joga sobre o Palmeiras uma mancha vergonhosa de intolerância que será difícil de apagar.”
É isso. É claro que existe gente homofóbica, racista e babaca dentro do Palmeiras, assim como infelizmente existe em todos os clubes e na sociedade de uma maneira geral. Feita a merda, o que caberia é se desligar imediatamente dela, soltar uma carta de repúdio, convocar uma coletiva, bater um tambor forte dizendo: isso não é o Palmeiras, o Palmeiras repudia a homofobia e está aberto a todo brasileiro que nutra simpatia por suas cores e história. Não é querer ser bonzinho politicamente correto. É, como foi argumentado em outros textos aqui, olhar para o nosso próprio passado e enxergar que ele é uma história de inclusão; é olhar para a nossa torcida hoje e ver que ela é feita de muitas cores, costumes, origens e, por que não, orientações sexuais.
Mas o Palmeiras, a instituição, não fez isso. Silenciou, jogou pra baixo do tapete. E estimulou sua própria torcida a fazer o mesmo: esconder, minimizar.
O problema é que isso não vai ser esquecido. Assim como somos alvo de chacota quando um dirigente segue indicação de um pastor para cogitar contratar jogador, quando tentarmos argumentar que o Palmeiras é um time com valores que pode ser orgulhar vamos ser lembrados dessa maldita faixa e do silêncio que se seguiu. E, assim, vamos atrair mais gente homofóbica, racista e babaca para as nossas hostes, não só manchando nossa história como corroendo o nosso futuro.
Agora, por que não tivemos uma reação decente da diretoria? Porque, é verdade, estamos nos tornando um antro do que há de pior por aí, do mais mesquinho interesse imediato, da mais tacanha política do toma lá dá cá, do elitismo mais deplorável e, ironicamente, anti-profissional. É isso que nos ferra, é tanta máfia, é tanta gente interessada em tirar um pedaço, em se promover de alguma forma, que a coisa nunca anda.
Mais do que um novo técnico, mais do que bons jogadores, mais do que um presidente com culhão, mais do que “gente nova” – odeio esse termo, como se os novos não pudessem ser iguais aos velhos – precisamos de democracia e representatividade.
Não é mero acaso termos um presidente banana e incompetente. Ter uma gestão tosca é o produto exato, a representação máxima do sistema político palmeirense. Hoje, uma chapa boa não ganha e se alguns caras bons dão a sorte de chegar lá não conseguem governar. A estrutura mata as melhores intenções e as boas ideias (estas ainda mais raras). Na ânsia de uma certa “governabilidade” é preciso compatibilizar, abrigar os picaretas e rezar pra que eles não façam merda grande. Vendo de fora (porque sou sócio do interior – aliás, dep. do interior, atualizem meu endereço, cacete, já mandei email e tal), o futebol e o clube em geral parece um grande cabidão pra filho-primo-amigo de não sei quem que não consegue arrumar um bom emprego.
Cabe a todo torcedor palmeirense, hoje, repudiar a tal faixa escrota. Assim como, do mesmo modo que cobra raça dos jogadores em campo, precisa ter em mente que, quando veste a nossa camisa, representa a nossa história e nela não cabem atos de intolerância. Cabe ao torcedor lutar pela democracia, para que os aproveitadores que hoje infestam o clube tenham noção que não representam a diversidade daqueles que vibram com as nossas cores em todo o mundo. Seus interesses mesquinhos não são os nossos, seus preconceitos não fazem parte da nossa história.
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